quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Lot of Love

Tem esse show que assisti dia 15 de fevereiro, num lugar pequeno chamado Spike Hill, em NY. 
Já conhecia a banda e fui vê-los tocar nesse lugar pequeno com cara de bar de interior.
Não havia muita gente. Ruim para a banda, maravilhoso para mim, que quase tive um show particular.
Por falar em particularidades, ao final do show, a banda desceu do palco e desmontou o próprio set. 
Gostei de ver eles guardando seus instrumentos. me veio uma lembrança boa.
Além disso, posso contar depois que vi o pessoal do Runaway Dorothy fazendo isso.
A música abaixo se chama "A Lot of Love". 
A filmagem, claro, é minha. Pequenos deslizes podem ser creditados diretamente a uma cerveja chamada Schneider Aventinus. Cuidado com ela...

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domingo, 1 de janeiro de 2012

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Nossa primeira incursão na cinedramaturgia. Obs: mais filmes virão....

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Frio na Barriga

Um repórter comenta num camarim: depois de mais de mil e tantos shows,
aposto que vocês nem sentem mais nenhum friozinho na barriga antes de
tocar.

Costumo responder que, se não tiver friozinho na barriga não tem mais
graça. Juro, não é demagogia. Trabalho para fazer com que na minha
cabeça, cada show, mesmo os não tão legais, sejam únicos e especiais.
Soa batido, eu sei, mas quando olho as pessoas de lá de cima do palco vejo
gente que, desde que acordou pela manhã, ou mesmo antes, dizia para si
mesmo: “é hoje!” não consigo esconder um puta orgulho de protagonizar
esses momentos.

Imagino alguns escolhendo cuidadosamente a roupa, cuidando do cabelo
com um pouco mais de demora, trocando mensagens com os amigos,
combinando o aquecimento.

Há quem fique impassível diante disso. Não é o meu caso. Me recuso a
assumir como um privilégio para o público a simples visão da banda em cima
do palco. Ia ser, para mim, o fim se fosse assim.

Nem sempre está tudo certo comigo quando subo no palco. Como é fácil de
imaginar, temos nossos problemas fora e dentro da banda e é quase
impossível relevar tudo na hora do show. Se trata, então, de transformar
energias de cargas diversas em um momento inesquecível para aqueles que
foram nos assistir.

Hoje temos a felicidade de fazer shows para milhares de pessoas. Nem
sempre foi assim, e eu não esqueço daqueles que fizemos para uma dezena
ou menos. Eles foram inesquecíveis pricipalmente por um motivo: foram
grandes shows. Alguns dos melhores. Fizeram valer a dedicação daqueles
poucos que encararam aquela noite, como nós, como uma noite única. E
tiveram, como sempre, o velho e bom friozinho na barriga que faz tudo valer
a pena.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Às vezes você não tem a sensação de que as pessoas não gostam muito de você?

“Às vezes você não tem a sensação de que as pessoas não gostam muito de
você?”

Ela ouvia em silêncio, mas me olhava fixamente. Estaria prestando atenção?
E o silêncio? Poderia significar que ela concordava com o que havia dito, que
compartilhava, eventualmente, dessa mesma sensação ou que concordava,
por qualquer motivo, com aqueles que não gostavam de mim. Quem poderia
gostar de alguém tão paranóico, ou mesmo egocêntrico, que achava que
alguém perderia um único segundo de sua existência procurando algum
motivo para desgostar de si próprio? Estava chafurdando no buraco,
escavando mais e mais e me afundando mais e mais.

A razão daquele papo é que estava triste e queria, no fundo, ouvir algumas
palavras doces, mesmo que não fossem sinceras. Estava aprendendo de
novo que, cada vez mais, tinha de aprender a sair sozinho dos buracos que
cavava. Era um processo demorado que demandava a escuta repetida de
dois ou três discos, um ou outro filme e uma garrafa de vinho.

Impossível ignorar a sensação de que estava ficando sem interlocutores para
aqueles tipo de conversa. Não tinha mais amigos. Uma triste mas necessária
constatação que tinha um óbvio lado melancólico, mas que deixava tudo mais
claro e trazia embutida a solução para esses momentos: tenho que me virar
sozinho.

Sempre me julguei um bom ouvinte para essas horas. Sou um bom
massagista de egos e não faço isso com muito esforço. Um lado de mim
reforça, constantemente, os motivos para gostar dos outros, embora, claro,
os defeitos alheios me cansem também mas, quem não os têm? O fato é que
me considero um bom amigo nesses momentos, o que não tem contribuído
muito para mantê-los mais próximos de mim.

Tento exercer minha generosidade compilando os meus defeitos como uma
forma de desenvolver mais tolerância para com os defeitos dos outros. Essa
compilação, contudo, foi ficando volumosa. Um livro de umas quatrocentas
páginas que acabou me intimidando na hora de procurar os amigos e foi,
aos poucos, gerando um afastamento que nada teve de voluntário e que
abriu a porta para um pouco de amargor que foi tirando a energia para
reverter essa situação. Fui desenvolvendo, por isso, uma pretensa
independência, uma sensação de que posso me virar sozinho com minhas
angústias existenciais. Tudo isso embalado por um bom tinto e alguma
música condescendente. Mais do que isso: comecei a gostar, doentiamente,
de tudo isso, em alguns momentos.

Alguém disse, um dia, que muita coisa boa foi criada por pessoas dentro
desse estado de espírito. Gostaria de acreditar. Tudo o que produzo quando
estou assim não resiste à luz do sol da manhã seguinte. Não. Um gênio
angustiado pode estar angustiado, mas antes de tudo, é um gênio. Só o que
muda é a paleta de cores que ele usa.

“É, acho que tenho algo parecido, mas não em relação a TODO MUNDO,
sabe? Só em relação à algumas pessoas”.

A pior resposta. Tirou a ação do meu personagem. Será que é tão
complicado para alguns compreender quando você está a fim de ser um
pouco bajulado?

“Não!! Eu tenho essa sensação em relação a TODO MUNDO (usei a mesma
entonação). A TODA E QUALQUER PESSOA QUE CRUZE COMIGO PELA
RUA E TODA E QUALQUER PESSOA COM A QUAL TENHA QUALQUER
TIPO DE CONVERSAÇÃO (já estava começando a soar caricata a minha
imtação dela).”

“Isso inclui a mim?”

“Não incluía até agora há pouco, mas já começo a pensar que escolhi a
pessoa errada para coversar.”

“Sabe qual é o seu problema?”

“Posso fazer uma lista, mas aviso que vai demorar para escrever e acho que
você não vai ter paciência para ler”.

“Aí está o seu problema! Você exagera em tudo!”

Não!!! Me enganei. ESSA era a pior resposta possível! Tudo o que eu
precisava agora era de alguém diminuindo a minha sensação de angústia,
banalizando a coisa. A próxima fala poderia ser: vai a um shopping e compra
alguma coisa que passa essa tristeza.

“Quer dizer que eu me sentir assim é só um EXAGERO da minha parte?” (a
entonação de novo).

“Sim. Quero dizer, é normal as pessoas se sentirem assim de vez em
quando. Não tem nada de errado nisso. Errado é valorizar demais a coisa,
assim como você está fazendo”.

Por alguma razão, o que ela disse fazia algum sentido e por algum motivo,
atrás da minha raiva crescente, consegui perceber aquele sentido e isso me
fez pensar que eu podia, de fato, estar exagerando mesmo. Mais uma página
para o compêndio de meus defeitos: tendo a exagerar nas coisas negativas.
Pode ser uma desculpa para me embriagar, eventualmente...
Pensando assim... parece um pouco patética aquela minha sensação de
alguns minutos atrás.

Ficamos nos olhando por alguns segundos em silêncio e logo desatamos a rir
descontroladamente. Rimos até as lágrimas. Paramos e então rimos mais e
mais. O garçom do bar nos olhou de um jeito divertido. Entre lágrimas falei:

“Traz dois cálices de vinho, por favor?”

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O artista que habita o nosso imaginário e as drogas.

Era o começo do século e um clima de descrença na civilização como um
processo que nos tornaria necessariamente melhores emergia como fruto da
primeira guerra.

O surrealismo, movimento artístico nos anos 20, preconizava que a
consciência era uma barreira a ser transposta para se revelar a verdadeira
Arte. A esfera da consciência era, para vários desses artistas, o lugar onde
se incrustrava a “hipocrisia burguesa”, a “semente do mal”, a responsável
pelo horror. Erigia-se, assim imagem do artista como alguém que transcendia
as trivialidades cotidianas e habitava, por assim dizer, um plano alternativo de
consciência que não o comezinho desfrutada pelos outros mortais, mesmo
que para isso dependesse de alguma “química”.

Se explicava, assim, desde a orelha de Van Gogh até o súbito
desaparecimento de Amy Winehouse dias atrás: É um sentimento de
inquietude, de inadequação próprio da sensibilidade do artista. Um desejo de
que fosse tudo diferente que conduz os grandes “mártires da civilização” aos
excessos e à autodestruição. É, no fundo, por nós esse sacrifício. É uma
necessidade. Falso.

Isto é, é claro, uma construção. E uma construção perigosa.
Vamos nos acostumando a ver processos pelos quais Amy passou como
quase uma contingência da profissão.

Alguns babacas chegaram a defender a tese de que as drogas teriam a
capacidade de fazer submergir o consciente, abrindo, assim as portas para a
percepção e criando o ambiente propício para o exercício da criatividade em
toda a sua potência, sem barreiras.

Não, também não é uma “doença social”. Já cansei dessas teses de que
certas posturas são uma certa imposição social. Bobagem. Isso é só uma
forma de distribuir culpas, não de assumi-las.

Houve quem dissesse que se falou muito mais na Amy drogada do que na
Amy artista. Acho que, infelizmente, é impossível dissociar uma da outra.
Aqui vai uma questão de puro gosto pessoal. Amy era uma boa cantora, sem
dúvida, mas acho que muito de sua visibilidade vem de seu comportamento.
Não possuía, a meu ver, o talento de um Hendrix, Joplin ou mesmo Cobain.

Quando um astro qualquer começa a dar exibições públicas de seus
problemas com drogas começa a autorizar a confusão entre talento e
alteração de consciência no artista que reside no imaginário das pessoas. No
caso de Amy, pessoas de todas as idades, algumas bem jovens, viam no
cabelo, na maquiagem e no estilo de vida dela algo no que se inspirar. E isso
é, sim, perigoso, porque as drogas matam. Isso Amy também mostrou.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Respondendo a uma pergunta...

Pergunta recorrente em quase todas as nossas entrevistas: o que acham da
atual cena musical – roqueira – do Brasil?

A pergunta possivelmente busca, mais do que satisfazer a curiosidade do
entrevistador, extrair uma declaração de cunho saudosista, do tipo “No nosso
tempo era diferente. Mesmo o pop tinha outro teor”.

Fácil criticar, dependendo do ângulo que se vê, ainda mais porque o sucesso
implica em visibilidade, massificação e acaba por oferecer, à vista de
tamanha aceitação, a tentação de que busquemos generalizar um certo
“gosto” – ou mau gosto – nacional que parece cada dia um pouco pior.

Parênteses. Provavelmente a maioria do que se produz aqui, como de resto
em qualquer lugar do mundo, deve ser bem interessante. Só que tem menos
visibilidade. Temos que aprender a usar os recursos que o mundo nos
oferece. Fecha parênteses.

Alguns, claro, cedem à tentação e baixam a lenha nos roqueiros coloridos. O
que também não é difícil. Não ignoram, possivelmente, que aqueles não têm
culpa pelo sucesso, embora o “sucesso” pareça estar cada vez mais
vinculado à disposição e dimensão do investimento financeiro, nem todo o
dinheiro do mundo é capaz de fazer uma música tocar se ela não encontrar
alguém que se identifique com ela. A culpa, assim, inexiste. Ainda assim vejo,
no entanto, a manifestação crítica como válida. Mais que válida, necessária.
Ela é parte do jogo. Ainda mais quando se conhece os mecanismos que
frequentemente conduzem e mantêm o sucesso. As boas críticas são quase
como autocríticas. Uma indignação contra a acomodação, contra a aceitação
bovina do que o mercado nos joga na cara quase todas as horas do dia.

Não é errado criticar. Errado seria ser desrespeitoso e estúpido nessa
prática, como de resto, em qualquer manifestação, não é? Ainda assim, até a
estupidez faz parte do jogo. O espaço da crítica é sagrado, embora pareça
um pouco fora de moda, o que é triste de constatar, e não só dentro da
esfera da música.

O Nenhum de Nós foi, e ainda é, muito criticado. Às vezes com bastante
contundência. É sempre chato, mesmo que finjamos que não ou
pretendamos ignorar. Dói sim. Mas não nos paralisa. Doentio é querer viver
na unanimidade positiva. Ou mesmo imaginar que o ato de criticar possa ser
ilegítimo, manifestação evidente, a meu ver, de um nanismo autoritário mal
adormecido e que, de novo, parece despertar por todo o canto.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma droga de noite

Abriu os olhos. Ainda era noite. Por um momento não reconheceu onde
estava e até gostou da sensação. Então, logo lembrou.

O quarto, na penumbra, parecia ainda mais triste. Pela janela, a luz da rua
entrava e aos poucos o lugar foi ficando mais visível. Cheirava a sapato velho
e meias usadas. O outro lado da cama estava vazio e a luz do banheiro
brilhava por baixo da porta. Barulho de água.

Não costumava dormir com quem conhecia tão pouco. Nem ao menos tinha
uma boa razão, como uma paixão repentina ou a perspectiva de uma relação
promissora, mas ali estava, se recriminando. Chato.

Mentira. Havia uma razão. Saíra assustada e meio zonza de um bar onde
fora assaltada. Os bandidos tinham até sequestrado um cara. Sem dinheiro,
celular e documentos, resolvera acompanhar o amigo até o apartamento
dele, perto dali, com a desculpa de relaxar. Beberam mais um pouco e uma
coisa levou à outra. Agora só queria cair fora dali.

Enquanto pensava nisso foi colocando a roupa, o sobretudo e os coturnos.
Foi até a porta do banheiro para se despedir. Parou antes de tocar a
maçaneta. Lá dentro, ele cantava uma canção. Caetano, Gil ou Chico. Ou os
três juntos, sabe-se lá. Desistiu. Ele já estava feliz sozinho. Sairia “à
francesa”.

Sem dinheiro, teria que ir para casa caminhando. Seria uma longa
caminhada. Calculou em mais de hora. Um passeio na madrugada fria de
uma cidade que achava que conhecia bem, embora sua fé nisso tenha
diminuído depois do assalto.

Era professora de arte. Ele, de história. Ele era um cara bonito, grande e
despojado. Cabelo descuidado, roupa descuidada, unhas descuidadas e
cultura descuidada. Mas era bonito e isso, mais um pouco de álcool, fora o
suficiente. Mas deu. Ponto final. Por isso pensava nele no pretérito.

Não imaginava o que ele vira nela. Era alta, magra, mas usava cabelos
estranhos, roupas estranhas, unhas estranhas e cultivava um ceticismo tão
extremado que chegava a irritar os mais próximos. Seu mote era: “você acha
mesmo isso?”, com uma nada sutil entonação no “mesmo” que constrangia o
interlocutor a ponto de ele começar a duvidar que pensava mesmo no que
achava que estava pensando.

Ainda morava com sua mãe, aos quase trinta. Às vezes via isso como
preguiça. Em outras, achava razoável, já que as duas eram o que havia
restado da família. A seu favor contava o fato de que a mãe era uma pessoa
jovial e dinâmica, além de muito culta e esperta. Eram mais propriamente
amigas que compartilhavam o apê. Mas havia nisso tudo um tom melancólico
que vinha de algum lugar. Não sabia exatamente de onde. Talvez na
ausência do pai, que um dia qualquer fora embora. Ela era apenas uma
adolescente e então culpou a mãe, a si mesma, ao dinheiro e, finalmente, a
ele. Depois escolheu perdoar, mas nunca esqueceu. A saudade vinha em
ondas a cada dificuldade que enfrentasse, facilitando o choro. Como agora
em que encarava a escuridão da rua, percebendo que não havia saído tão
incólume do assalto quanto supunha. Respirou fundo e seguiu adiante.

Um ou dois quarteirões adiante algo revirou-se em seu estômago. Debruçou-se
sobre uma floreira e vomitou. Logo tudo ficou escuro. Perdeu as forças e
começou a cair. Um braço surgiu a segurou e a colocou sentada na beira da
calçada, com a cabeça entre as pernas. O suor lhe escorria pelo rosto.
Encarou seu benfeitor, ainda sem conseguir falar. Um homem grisalho
sentou-se ao seu lado olhando para ela como se fosse a primeira vez que
visse um ser humano.

“Melhor?”

“Ainda não, mas vou ficar. Ahn, obrigado”.

“Eu que agradeço. Minhas flores andavam meio caídas”.

“São... eram suas? Oh, desculpe”.

“Nada”.

Tirou uma mecha vomitada de cabelo do rosto: “Você é meu anjo da guarda”.

“Fábio.”

“Como?”

“Fábio. O meu nome”.

“Ah. Sim. Desculpe. Ana”.

Esticou a mão suja. Ele olhou. Procurou um pedaço limpo e balançou a mão
dela.

“E então... Ana? Saindo de alguma festa? Se eu posso perguntar. Ou você
sempre alimenta plantas de madrugada?”

Ela riu. E riu mais um pouco e o riso foi ficando descontrolado. Logo ela
estava dobrada na calçada chorando de tanto rir. Fábio a olhava, divertido, o
queixo apoiado nas mãos.

“Desculpe. nào estava rindo de você. Não. Não foi uma festa. Foi uma droga
de noite que começou com um assalto e terminei sem dinheiro, celular e toda
vomitada. E, seu puder perguntar, o que você faz na rua? Não tenho ideia da
hora, mas deve ser bem tarde. Ou cedo. Sei lá”.

“Gosto de caminhar de madrugada. Não durmo muito bem. Isso ajuda”.

Ela olhava para o céu, tentando adivinhar a hora.

“E, Ana... você estava indo para casa? Mora aqui perto?”

“Não. Beeeem longe”.

“Escuta, Ana. Daqui a pouco clareia. Se quiser, vamos ao meu apartamento.
Preparo um café. Você... lava o rosto e sai de dia. É mais seguro”.

“Não. Acho que não”. Respondeu como um reflexo. Um preset que usou
tantas vezes que parecia sair do mesmo conjunto de células do cérebro que
usava para escovar os dentes. Ele não pareceu surpreso e muito pouco
desapontado, como se esperasse essa resposta.

“Ok. Entendo. Olha. Você vai ficar bem?”

Ela não respondeu. Ainda pensava no que havia dito antes, se não havia sido
muito rude, ou ingrata. Ficou um pouco envergonhada: “Quer dizer... não
quero incomodar”.

“Não teria convidado. Mas ok. Eu entendo mesmo”.
“Sim. Acho que estou bem”.

Ele a olhou por alguns instantes. Olhou para o chão. Suspirou. Colocou as
mãos nos joelhos e se levantou.

“Boa noite. Ou bom dia, então, Ana”, falou com um sorriso. E saiu
caminhando pela noite. Um quarteirão. Dois. Logo ela não conseguia mais
vê-lo.

Uma droga de noite, mesmo.