quinta-feira, 24 de setembro de 2015

140 caracteres pode parecer pouco para pensamentos um pouco mais profundos, mas é mais do que suficiente para dizer alguma, vá lá, bobagem.

Semana passada o Nenhum foi contratado para tocar na comemoração de bodas de um casal que gosta muito da banda, desnecessário dizer.

Eles, a princípio, resistiram à ideia de fazer uma festa: "vamos juntar aquela parentada que ainda vai sair falando mal", riam eles.

Entretanto os filhos do casal, dois rapazes, 17 e 14 anos, se não me engano, insistiram: "vocês sempre foram tão unidos, tão felizes. Isso precisa de uma comemoração".

Não, não estou inventando. Eles confirmaram tudo na minha frente.

Já fui um cara mais frio para esse tipo de coisa, mas faz tempo que venho deixando que certas emoções aflorem sem freio. Fiquei realmente feliz de estar ali naquela comemoração tão pessoal, tão importante para aquelas pessoas. Foi um momento muito especial para mim também.

Na ida para o aeroporto, no dia seguinte, fiquei fuçando no twitter, olhando as novidades e, olhando os tweets de uma outra pessoa, que eu não sigo, vi uma frase mais ou menos assim: "muito me estranha os homossexuais defenderem bandeiras tão rasgadas e falidas como o casamento e família".

Minha primeira sensação foi movida pela coincidência em relação àquilo que havia visto e ouvido no dia anterior. Depois pensei que existe uma confusão – politização, claro – em relação ao que alguns pensam saber dos homossexuais e do que eles realmente são. Para alguns, os homossexuais não são pessoas, mas uma ideia, e ai daqueles que recusarem os rótulos que a intelligentsia lhes impõe.
Pobres deles, sofrem nas mãos dos que os discriminam e nas mãos dos seus "salvadores".

O tuiteiro em questão era um já cinquentão e era saudado como "gênio" pelos seus seguidores.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Show de Ontem

Ontem subimos no palco do teatro São Pedro para comemorar o aniversário de 154 anos da velha e bem ativa casa no centro de Porto Alegre.

Como sempre acontece nesses casos, tentamos fazer alguma coisa que fizesse desse um momento especial, então decidimos rechear o show com alguns convidados.
Os convites foram obedecendo vários critérios que envolviam, claro, a disponibilidade de alguns para a data, que foi escolha do teatro.

Sem muita combinação prévia, acabou se formando um grupo de convidados que, de certa forma, representa nossas principais vertentes criativas, influências, ou ainda a conjugação da forças que entra em conflito, ou compactua, cada vez que nos metemos a criar música.

Um deles foi o Ney Van Soria, cantor e criador de pop songs adesivas ao ouvido, com um pendor para o romântico bem resolvido e um leve e bem incorporado sotaque argentino. Ele agora prepara um disco que terá a participação de ninguém menos que o Charly García.

Outro foi o nativista Luiz Marenco, também conhecido por @luizmarenco, que através de ritmos bem tradicionais costura letras e histórias impressionantes, daquelas que dá vontade de ouvir de novo por dois motivos. Primeiro pela história em si, normalmente uma grande sacada. Segundo pela coleção de termos incompreensíveis para a imensa maioria dos que vivem fora do universo do autor, e que nos desafia a interpretar o sentido.

O terceiro foi uma dupla de integrantes de um grupo de rock daqui bastante conhecido dos 80 – provavelmente não vai adiantar perguntar para pai e mãe, a não ser que eles fossem bem informados mesmo! – chamado DeFalla, o Edu K e a Biba Meira, vocal e batera da banda. Com eles ensaiamos duas músicas durante meia hora, um pouco antes do show. Tudo a ver com o espírito da banda que destila espontaneidade e que se resolve ali mesmo, em cima do palco, com a bola em jogo.  

Cada convidado puxava a brasa para a sua sardinha e nós seguíamos alegremente o convite para sua conversa particular.

Foi um belo show. Já deve ter algo no YouTube.

No final do ano tem mais.  


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Lot of Love

Tem esse show que assisti dia 15 de fevereiro, num lugar pequeno chamado Spike Hill, em NY. 
Já conhecia a banda e fui vê-los tocar nesse lugar pequeno com cara de bar de interior.
Não havia muita gente. Ruim para a banda, maravilhoso para mim, que quase tive um show particular.
Por falar em particularidades, ao final do show, a banda desceu do palco e desmontou o próprio set. 
Gostei de ver eles guardando seus instrumentos. me veio uma lembrança boa.
Além disso, posso contar depois que vi o pessoal do Runaway Dorothy fazendo isso.
A música abaixo se chama "A Lot of Love". 
A filmagem, claro, é minha. Pequenos deslizes podem ser creditados diretamente a uma cerveja chamada Schneider Aventinus. Cuidado com ela...

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domingo, 1 de janeiro de 2012

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Nossa primeira incursão na cinedramaturgia. Obs: mais filmes virão....

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Frio na Barriga

Um repórter comenta num camarim: depois de mais de mil e tantos shows,
aposto que vocês nem sentem mais nenhum friozinho na barriga antes de
tocar.

Costumo responder que, se não tiver friozinho na barriga não tem mais
graça. Juro, não é demagogia. Trabalho para fazer com que na minha
cabeça, cada show, mesmo os não tão legais, sejam únicos e especiais.
Soa batido, eu sei, mas quando olho as pessoas de lá de cima do palco vejo
gente que, desde que acordou pela manhã, ou mesmo antes, dizia para si
mesmo: “é hoje!” não consigo esconder um puta orgulho de protagonizar
esses momentos.

Imagino alguns escolhendo cuidadosamente a roupa, cuidando do cabelo
com um pouco mais de demora, trocando mensagens com os amigos,
combinando o aquecimento.

Há quem fique impassível diante disso. Não é o meu caso. Me recuso a
assumir como um privilégio para o público a simples visão da banda em cima
do palco. Ia ser, para mim, o fim se fosse assim.

Nem sempre está tudo certo comigo quando subo no palco. Como é fácil de
imaginar, temos nossos problemas fora e dentro da banda e é quase
impossível relevar tudo na hora do show. Se trata, então, de transformar
energias de cargas diversas em um momento inesquecível para aqueles que
foram nos assistir.

Hoje temos a felicidade de fazer shows para milhares de pessoas. Nem
sempre foi assim, e eu não esqueço daqueles que fizemos para uma dezena
ou menos. Eles foram inesquecíveis pricipalmente por um motivo: foram
grandes shows. Alguns dos melhores. Fizeram valer a dedicação daqueles
poucos que encararam aquela noite, como nós, como uma noite única. E
tiveram, como sempre, o velho e bom friozinho na barriga que faz tudo valer
a pena.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Às vezes você não tem a sensação de que as pessoas não gostam muito de você?

“Às vezes você não tem a sensação de que as pessoas não gostam muito de
você?”

Ela ouvia em silêncio, mas me olhava fixamente. Estaria prestando atenção?
E o silêncio? Poderia significar que ela concordava com o que havia dito, que
compartilhava, eventualmente, dessa mesma sensação ou que concordava,
por qualquer motivo, com aqueles que não gostavam de mim. Quem poderia
gostar de alguém tão paranóico, ou mesmo egocêntrico, que achava que
alguém perderia um único segundo de sua existência procurando algum
motivo para desgostar de si próprio? Estava chafurdando no buraco,
escavando mais e mais e me afundando mais e mais.

A razão daquele papo é que estava triste e queria, no fundo, ouvir algumas
palavras doces, mesmo que não fossem sinceras. Estava aprendendo de
novo que, cada vez mais, tinha de aprender a sair sozinho dos buracos que
cavava. Era um processo demorado que demandava a escuta repetida de
dois ou três discos, um ou outro filme e uma garrafa de vinho.

Impossível ignorar a sensação de que estava ficando sem interlocutores para
aqueles tipo de conversa. Não tinha mais amigos. Uma triste mas necessária
constatação que tinha um óbvio lado melancólico, mas que deixava tudo mais
claro e trazia embutida a solução para esses momentos: tenho que me virar
sozinho.

Sempre me julguei um bom ouvinte para essas horas. Sou um bom
massagista de egos e não faço isso com muito esforço. Um lado de mim
reforça, constantemente, os motivos para gostar dos outros, embora, claro,
os defeitos alheios me cansem também mas, quem não os têm? O fato é que
me considero um bom amigo nesses momentos, o que não tem contribuído
muito para mantê-los mais próximos de mim.

Tento exercer minha generosidade compilando os meus defeitos como uma
forma de desenvolver mais tolerância para com os defeitos dos outros. Essa
compilação, contudo, foi ficando volumosa. Um livro de umas quatrocentas
páginas que acabou me intimidando na hora de procurar os amigos e foi,
aos poucos, gerando um afastamento que nada teve de voluntário e que
abriu a porta para um pouco de amargor que foi tirando a energia para
reverter essa situação. Fui desenvolvendo, por isso, uma pretensa
independência, uma sensação de que posso me virar sozinho com minhas
angústias existenciais. Tudo isso embalado por um bom tinto e alguma
música condescendente. Mais do que isso: comecei a gostar, doentiamente,
de tudo isso, em alguns momentos.

Alguém disse, um dia, que muita coisa boa foi criada por pessoas dentro
desse estado de espírito. Gostaria de acreditar. Tudo o que produzo quando
estou assim não resiste à luz do sol da manhã seguinte. Não. Um gênio
angustiado pode estar angustiado, mas antes de tudo, é um gênio. Só o que
muda é a paleta de cores que ele usa.

“É, acho que tenho algo parecido, mas não em relação a TODO MUNDO,
sabe? Só em relação à algumas pessoas”.

A pior resposta. Tirou a ação do meu personagem. Será que é tão
complicado para alguns compreender quando você está a fim de ser um
pouco bajulado?

“Não!! Eu tenho essa sensação em relação a TODO MUNDO (usei a mesma
entonação). A TODA E QUALQUER PESSOA QUE CRUZE COMIGO PELA
RUA E TODA E QUALQUER PESSOA COM A QUAL TENHA QUALQUER
TIPO DE CONVERSAÇÃO (já estava começando a soar caricata a minha
imtação dela).”

“Isso inclui a mim?”

“Não incluía até agora há pouco, mas já começo a pensar que escolhi a
pessoa errada para coversar.”

“Sabe qual é o seu problema?”

“Posso fazer uma lista, mas aviso que vai demorar para escrever e acho que
você não vai ter paciência para ler”.

“Aí está o seu problema! Você exagera em tudo!”

Não!!! Me enganei. ESSA era a pior resposta possível! Tudo o que eu
precisava agora era de alguém diminuindo a minha sensação de angústia,
banalizando a coisa. A próxima fala poderia ser: vai a um shopping e compra
alguma coisa que passa essa tristeza.

“Quer dizer que eu me sentir assim é só um EXAGERO da minha parte?” (a
entonação de novo).

“Sim. Quero dizer, é normal as pessoas se sentirem assim de vez em
quando. Não tem nada de errado nisso. Errado é valorizar demais a coisa,
assim como você está fazendo”.

Por alguma razão, o que ela disse fazia algum sentido e por algum motivo,
atrás da minha raiva crescente, consegui perceber aquele sentido e isso me
fez pensar que eu podia, de fato, estar exagerando mesmo. Mais uma página
para o compêndio de meus defeitos: tendo a exagerar nas coisas negativas.
Pode ser uma desculpa para me embriagar, eventualmente...
Pensando assim... parece um pouco patética aquela minha sensação de
alguns minutos atrás.

Ficamos nos olhando por alguns segundos em silêncio e logo desatamos a rir
descontroladamente. Rimos até as lágrimas. Paramos e então rimos mais e
mais. O garçom do bar nos olhou de um jeito divertido. Entre lágrimas falei:

“Traz dois cálices de vinho, por favor?”

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O artista que habita o nosso imaginário e as drogas.

Era o começo do século e um clima de descrença na civilização como um
processo que nos tornaria necessariamente melhores emergia como fruto da
primeira guerra.

O surrealismo, movimento artístico nos anos 20, preconizava que a
consciência era uma barreira a ser transposta para se revelar a verdadeira
Arte. A esfera da consciência era, para vários desses artistas, o lugar onde
se incrustrava a “hipocrisia burguesa”, a “semente do mal”, a responsável
pelo horror. Erigia-se, assim imagem do artista como alguém que transcendia
as trivialidades cotidianas e habitava, por assim dizer, um plano alternativo de
consciência que não o comezinho desfrutada pelos outros mortais, mesmo
que para isso dependesse de alguma “química”.

Se explicava, assim, desde a orelha de Van Gogh até o súbito
desaparecimento de Amy Winehouse dias atrás: É um sentimento de
inquietude, de inadequação próprio da sensibilidade do artista. Um desejo de
que fosse tudo diferente que conduz os grandes “mártires da civilização” aos
excessos e à autodestruição. É, no fundo, por nós esse sacrifício. É uma
necessidade. Falso.

Isto é, é claro, uma construção. E uma construção perigosa.
Vamos nos acostumando a ver processos pelos quais Amy passou como
quase uma contingência da profissão.

Alguns babacas chegaram a defender a tese de que as drogas teriam a
capacidade de fazer submergir o consciente, abrindo, assim as portas para a
percepção e criando o ambiente propício para o exercício da criatividade em
toda a sua potência, sem barreiras.

Não, também não é uma “doença social”. Já cansei dessas teses de que
certas posturas são uma certa imposição social. Bobagem. Isso é só uma
forma de distribuir culpas, não de assumi-las.

Houve quem dissesse que se falou muito mais na Amy drogada do que na
Amy artista. Acho que, infelizmente, é impossível dissociar uma da outra.
Aqui vai uma questão de puro gosto pessoal. Amy era uma boa cantora, sem
dúvida, mas acho que muito de sua visibilidade vem de seu comportamento.
Não possuía, a meu ver, o talento de um Hendrix, Joplin ou mesmo Cobain.

Quando um astro qualquer começa a dar exibições públicas de seus
problemas com drogas começa a autorizar a confusão entre talento e
alteração de consciência no artista que reside no imaginário das pessoas. No
caso de Amy, pessoas de todas as idades, algumas bem jovens, viam no
cabelo, na maquiagem e no estilo de vida dela algo no que se inspirar. E isso
é, sim, perigoso, porque as drogas matam. Isso Amy também mostrou.