domingo, 2 de janeiro de 2011

Complicando

Todo mundo gosta das coisas simples. Ou queria tornar as coisas mais
simples.

Nasce e renasce no nosso imaginário a noção de que simplificar as coisas é,
sempre, uma melhora. Também virou meio consensual que aprender a
enxergar a beleza na simplicidade, bem como comprazer-se com as coisas
simples torna a vida mais fácil. Será?

Já tenho um problema natural com as coisas muito consensuais. Um dos
meus melhores professores um dia me disse que é no mínimo preguiçoso,
quando não desnecessário, dizer o mesmo que todo mundo diz. Concordo. O
senso comum me dá arrepios. Logo, discordo das simplificações por isso.
Mas há outras razões.

No olhar de um artista dos bons, uma paisagem de céu, campo e umas
colinas distantes vira um turbilhão de complexidades. Ele parece desmontar a
suposta harmonia da cena e a recria através de um filtro interior quase nunca
muito harmônico e equilibrado, quando ele é dos bons, repito.

Um amigo queria que nosso novo disco soasse mais... simples. Entendo o
que ele quer dizer. Mas simples, na criação artística, é uma ideia muito
enganosa. A simplicidade que nos seduz nos trabalhos alheios é sempre
fruto de um estupidamente complexo processo de amadurecimento do
próprio artista. Aquilo que vemos é só o reflexo desse processo. A ponta do
iceberg. Difícil e inútil tentar imitar.

Viver, falar, tocar, escrever, transar, abraçar, relaxar, pintar, cantar, beijar, criar filhos, amar
e caminhar de mãos dadas são coisas bem complicadas. Não existem
manuais ou regras que possam garantir que, ao segui-las, seremos bons em
fazer essas coisas. Simplificar? Acho que não.

3 comentários:

  1. Viver, falar, tocar, escrever, transar, abraçar, relaxar, pintar, cantar, beijar, criar filhos, amar e caminhar de mãos dadas. NESTA ordem?

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  2. É... eu tb já refleti e discorri (sem muito êxito) sobre este assunto.
    Parabens pelo blog! Descobri ele hj, e sempre que eu puder, passarei pra conferir as novidades.

    Eduardo.

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