quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Marrons, verdes, cinzas e pretos.

Não era a fama. Definitivamente não era o dinheiro. O apreço de algumas pessoas e a música ainda eram importantes, mas um dia ele percebeu, quase como uma revelação: era a estrada.
Uma vez contou sobre essa descoberta a alguém. Ele então lhe perguntou: porque você não se torna caminhoneiro ou algo parecido? Não, pensou, transformar isso num modo de ganhar a vida? Nem pensar. Pode matar o encantamento.

Surgiu do nada.

Tinha acordado de madrugada e o ônibus inteiro ainda dormia. Colocou os fones e a música certa. Ele olhou para o céu e então aconteceu. Nada de excepcional. Nenhum brilho no meio das nuvens. Só uma sensação. A sensação de algo maior que ele. Nada sagrado, nem perto disso. Não acreditava nessas coisas.
Foi uma ligação difícil de descrever. Já havia ouvido falar excessivamente de sensações da paz e liberdade, mas se recusava a reduzir essa intensidade a esses lugares comuns.
Era sempre difícil sair. Deixar para trás pessoas de quem gostava e que sentiam falta dele. A estrada, no entanto, era necessária.

Aprendeu a gostar dos dias frios. Os céus eram bonitos, tinham tons rosados e alaranjados. Com o tempo aprendeu a admirar também o azul uniforme dos céus de verão. A luminosidade agressiva dos dias.

A sucessão de verdes e marrons que se tornavam cinzas e pretos ao escurecer.
Gostava da velocidade da estrada. O olhar tangenciava cada árvore, planície, pedras, água. As pessoas no caminho não pareciam ter uma existência concreta. Eram fantasmas na paisagem.

Nada depreciativo nisso.

Também gostava de se imaginar assim, um fantasma. Um ser com uma estranha ligação com aqueles verdes, marrons, cinzas, pretos. Era assim que se imaginava na percepção dos transeuntes. Essa sensação de uma existência fugaz, fugidia, o fascinava. Isso, contudo, não diminuia a conexåo com os – outros - fantasmas, pelo contrário, parecia criar uma espécie de cumplicidade fundada em olhares e gestos.

Enfim, silêncios eloquentes.

Havia as partidas e, lógico, os destinos, e nestes também conheceu pessoas que valia a pena conhecer, que também deixavam saudades. Poucas, nesse longo tempo. Mas havia. Elas também povoavam de imagens os momentos de contemplação.

Mas a sua fascinação era o trajeto. A linha que liga os dois pontos.

Como quase todo mundo, havia construido um sonho em que harmonizava o seu desejo de autonomia e a humana necessidade de relacionamento com as outras pessoas. Não percebeu, no entanto, que a estrada havia construido uma harmonia baseada em ausências, onde as relações, as pessoas e a própria autonomia eram idealizadas. Um mundo paralelo. Quase perfeito.

Havia vivido muito tempo sozinho. Elaborou mecanismos para administrar sua dificuldade nos relacionamentos. Isso foi na adolescência, mas de alguma forma esses mecanismos voltavam a funcionar. Um campo de força se acionava automaticamente, independente da sua vontade.

Impossível negar a sensação de conforto que isso trazia. A droga nas mãos do viciado.

A estrada representava essa noção de perfeição e conforto. O símbolo da transitoriedade, uma metáfora da vida, mas também uma fuga.

Uma fuga de quê?

Nem ele sabia exatamente.

Sabia que havia uma existência real, concreta, e uma ideia de existência.
Sabia que existia uma origem e um destino e que a estrada, de formas imprecisas, com suas cores e imagens mutantes, escrevia a sua história.

3 comentários:

  1. Talvez seja isso mesmo: "a estrada corre por dentro de nós."
    Não apenas uma metáfora da vida, mas uma projeção de como a gente a encara a partir da relação que se estabelece com a estrada - ok, talvez tenha resultado numa redundância, mas há quem ande para lá e para cá e apenas enxergue a vida na origem e no destino (o que não é certo nem errado).
    Ou, sei lá, talvez seja algo bem simples: o modo como nos sentimos nas estrada condicione a maneira como queremos/gostaríamos de levar a vida (o que não implica numa necessidade de ser caminhoneiro, no seu caso, e acho que no meu também).

    Ou a quase garantia de algo novo sempre. Inclusive cada retorno a algum lugar pouco ou muito visitado. Inclusive a nossa casa.

    Além, é claro, dos cafés de beira dessas estradas.

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  2. Nossa, que lindo!

    Estrada... Ô coisinha que me fascina... Até hoje eu não sabia bem o porquê, agora comecei a entender... Obrigada!

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  3. Nossa... fez muito sentido pra mim!
    Gosto de viajar à noite. O céu escuro me acompanhando pela estrada me encanta. Não tenho para onde fugir. Me sinto sozinha no céu escuro e brilhante, mas não é ruim. O encontro comigo é inevitável, não tenho escolha. Só me resta respirar fundo e aproveitar.
    Os fones trazem a trilha sonora, geralmente escolhida à dedo. No embalo da música e da estrada sigo a minha viagem. Me sinto confortável em minha companhia, mesmo quando algumas lágrimas molham meu rosto. Essas gotinhas não tem significado único de tristeza, por isso não me importo com a presença delas.
    "Nós levamos tanto tempo para descobrir o tamanho do universo(...) Esperamos tantos anos para encontrar o sentido do silêncio..." Na estrada escura me sinto mais próxima de descobrir o tamanho do universo e o sentido do silêncio, isso me faz muito bem.
    Ao final da viagem sinto que não cheguei apenas ao destino previsto. Respiro fundo e me despeço de mim. Até a próxima!

    p.s. usei teu espaço para um desabafo meu! sorry.
    Beijos, Lívia Oliveira

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