Cena: gravação de disco. Todos riem, brincam. Parecem estar se divertindo.
Difícil até chamar de trabalho.
A realidade: para qualquer artista minimamente preocupado com a sua
trajetória, gravar um disco pode ser um momento delicado. Pequenas
tensões, discordâncias, contradições costumam covergir nesse momento. Até
mesmo artísticas.
Não são poucos os relatos de bandas que quase acabaram depois de um
novo álbum. Algumas diante de grandes obras. A repercussão positiva
acabou afrouxando as cordas, ou transferindo as questões para o próximo
trabalho.
Na verdade, sempre acreditei numa banda como uma química mais ou
menos complexa, marcada pela espontaneidade e pela conjugação de
personalidades que nem sempre conseguem conviver em harmonia. Como
em qualquer tipo de relação, aliás.
Por outro lado, quantos grupos foram formados a partir de critérios
exclusivamente musicais – as chamadas superbandas – pelos “melhores”
cantores, guitarristas baixistas, bateristas e tecladistas e que construíram
obras infinitamente inferiores àquelas feitas por bandas em que o cara olha
para o braço para se certificar que o ré maior está no lugar certo? É, a
“química” explica o inexplicável.
Voltando à questão da gravação. Acho que conosco, o Nenhum, não é
diferente. É um momento sensível pelos bons motivos que citei. Tudo tende a
ser um pouco difícil, uma nota, um acorde, um timbre, uma preposição. Tudo
passa pelo olhar impiedoso do critério artístico – que tende a ter um caráter
pessoal, mas que na mistura costuma funcionar. Dá “a cara da banda”. A
química, lembra?
É bom e ruim, ao mesmo tempo. E sempre delicado.
Agora estamos com os Contos de Água e Fogo (mesmo o nome passou por
um escrutínio de semanas) e nos deparamos com essa situação outra vez –
a décima quarta. Mas nesse caso específico com contornos um pouco
diferentes, originados também pela percepção de fatores externos, e aí já vai
uma ótica pessoal minha: o “mercado” da música mudou, ou alguém ainda
duvida disso? Ou acha que as coisas vão voltar a ser o que eram?
Parênteses: os músicos, tão ceosos do caráter de sua obra, rejeitam muitas
vezes a considerá-la uma “mercadoria”. Mas muitos desses agora lamentam
o débâcle do “mercado fonográfico”, o que dificultou as coisas para todos. Dá
para entender? Pois é, o “poder econômico” vinculado ao registro,
distribuição e veiculação das obras musicais está se esvaindo, o ideal
igualitário aos poucos se institui. Fecha parênteses.
Voltando: acontece que o Nenhum perdeu, em alguns momentos, espaço em
alguns veículos, como rádios e TV, tradicionais atores da indústria. Natural,
na medida em que este se abre para os artistas que estão surgindo. No
entanto, conservamos uma ótima agenda de shows e, melhor de tudo, o afeto
do público. Conservamos e ampliamos, diga-se. Como e porquê isso
acontece é algo que vinculo à forma como as pessoas consomem e escutam
música hoje em dia. Mais internet e menos mídias tradicionais? Me parece
que sim, muitas pesquisas já mostram que os jovens gastam mais tempo
diante do computador do que na TV, rádio então nem se fala.
O que isso tem a ver com os nossos Contos…, com a nossa química e com
as nossas atuais escolhas artísticas e, mais do que tudo, a pergunta que às
vezes nos fazem quando colocamos um trabalho novo à disposição: qual a
diferença entre esse disco e os trabalhos anteriores do Nenhum?
Contos de Água e Fogo foi, acima de tudo, construído sob a ideia de que o
Nenhum deveria olhar mais para o próprio umbigo. Isso é, reforço, minha
ótica pessoal.
Funciona quase como uma reconquista da liberdade criativa, o tipo de coisa
que acontece quando um artista lança seu primeiro trabalho – muitas vezes,
o melhor, a referência para toda a carreira.
O momento de reconfiguração da esfera da música (com internet, MP3 e tudo
o mais) trouxe uma série de ocorrências meio que inéditas. A principal delas,
e talvez a mais legal, seja a convivência concomitante de diversos estilos,
linguagens e sons, numa variedade até então nunca vista, o que abriu uma
brecha: o que é pop(ular) hoje em dia? Quase impossível dizer. Não que o
que faça sucesso não tenha elementos similares identificáveis entre si, mas o
fato é que, diante de tantas opções, a originalidade é, de novo, o ativo mais
valorizado. Isso, que sempre fez de trabalhar com música uma das coisas
mais legais que existem, voltou com tudo. Também aumentou a exigência,
afinal, tudo tem o seu equilíbrio. Essa é a marca do novo disco.
O fato é que estamos adorando brincar de fazer música, como nos velhos
tempos. Assumimos um compromisso sério com o descompromisso, que é,
no fundo, o combustível da melhor Arte.
Contos de Água e Fogo reflete ao mesmo tempo nossas qualidades e nossos
defeitos, nossas boas e más escolhas, nossa firmeza e nossas hesitações.
Mas nossas. Não existe nada nele que não foque no nosso centro.
Quem já ouviu a música nova já percebeu. E vem mais por aí.
domingo, 15 de agosto de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
Café frio
E tem esse sujeito, conhecido meu, torcedor arrebatado da seleção
holandesa. É isso mesmo: torce para a Holanda! Aquela das vacas, dos
tamancos e dos moinhos de vento. Desnecessário dizer que anda muito feliz
nos últimos dias.
holandesa. É isso mesmo: torce para a Holanda! Aquela das vacas, dos
tamancos e dos moinhos de vento. Desnecessário dizer que anda muito feliz
nos últimos dias.
Passa dia, passa outro, fico me perguntando: porquê o inferno da Holanda?
Teve aquele time de 74, o carrossel que ensinou ao mundo o futebol além de
um conjunto de individualidades. Era um time revolucionário, certo.
Apaixonante, ok, MAS ISSO FOI HÁ 36 ANOS! Meia vida! Porquê o inferno
da Holanda, não cansava de me perguntar.
Mais uns dias, já estava desejando que os países baixos sucumbissem a
uma onda gigante e já via benefícios no aquecimento global: o mar, enfim,
faria o sujeitinho engolir as evidências.
Um dia me enchi: o convidei para um café no meio da tarde. Minha intenção
era demover o ignóbil de tamanha estupidez. Holanda não! Sou capaz de
entender qualquer escolha, menos essa.
Chegando ao nosso encontro, num café estilo aqueles europeus que a gente
vê nos filmes antigos, madeira escura, iluminação suave, cortinas, janelas
altas com vidros de cristal e o cheiro achocolatado dos bons fumos
entranhado no ambiente. O lugar estava vazio. Ótimo, pensei, já que talvez
tivesse que passar uma descompostura no ignorantão e não queria ter que
moderar o tom.
Pois não é que o sujeito ainda me obrigou a esperar uns bons vinte minutos?
Era muito desrespeito, mas tudo bem. Aproveitei o tempo para afinar o meu
discurso, montando uma armadilha argumentativa inescapável. Ia ficar
rodopiando, o laranjinha.
Lá pelas cansadas ele chega, desligando o celular, meio esbaforido. Na certa
fingindo ocupação, mas se desculpou pelo atraso que, àquela altura nada
tinha de pequeno. Café? Sim. Simples ou duplo? Simples. (vai ser barbada, pensei).
Comecei meu pequeno roteiro. Como vai a vida? Qua anda fazendo? Ele
parecia, de alguma forma, desconfiado com o meu convite inédito, mas aos
poucos foi relaxando, afrouxando a defesa. Senti que a hora de atacar se
aproximava. Tem viajado? Já conhece a Europa, né? Sim. (arrá!).
Tentava aos poucos investigar os motivos de tal insanidade. Precisava de
pedras para as vidraças dele e ele as forneceria. Quais países conheceu?
Inglaterra, Espanha, Alemanha, Polônia, Holanda (arrá, de novo!!), Portugal.
E qual o que gostou mais, e porquê? (meio didático, eu sei, mas começava a
ficar ansioso. Tomei um gole de café. Frio. Ignorei, não queria mudar o rumo
da conversa) Inglaterra, disse ele, depois de um tempo. Vi shows fantásticos
lá e fui a lugares inesquecíveis que ele começou a descrever em detalhe.
(Inglaterra! Só podia ser provocação. Será que ele desconfiou dos meus
motivos? Impossível. Será que me denunciei quando ele falou Holanda? será
que não percebi e ergui o canto da sobrancelha à vista do ângulo
desguarnecido?)
De qualquer forma, já não ouvia uma única palavra do que
ele dizia. Eu era um tigre divisando minha presa.Tinha que ser agora! Pulei
na jugular: pois então me explique, já que não consigo enxergar nenhuma
razão para isso, porquê com o inferno você anda por aí envergando a
camiseta da seleção holandesa ao invés da canarinho ou de alguma outra
seleção cuja motivação seja minimamente justificável? Me explique isso
agora.
O sujeito levantou, genuinamente indignado: você não me peça para
racionalizar minha paixão! Paixões são assim, pairam acima das explicações,
senão morrem! Além do mais, no caso do futebol, que é o império das
paixões, isso representa mesmo um perigo! Diante do meu ar de
incompreensão e temor ante seu tom seguro ele prosseguiu: veja o nosso
caso, eu torço para o Grêmio e você para o Inter. Se eu tivesse que
transformar em racional minha escolha passional pelo tricolor teria que,
forçosamente, julgar irracional a sua escolha e achá-lo, no mínimo, um
imbecil por torcer para o colorado e tenho muitos amigos que torcem para o
Inter e não quero nem de longe cogitar a possibildade de começar a enxergar
meus amigos por esse prisma, portanto, nem comece! Minha paixão, meus
deboches e brincadeiras se restringem ao mundo da bola, e só a ele.
Aprenda a brincar!
Dito isso saiu de passo firme, me deixando com as reminiscências e a conta
do café frio.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
China 2
Sulistas, não estamos acostumados às feições orientais. Temos poucos descendentes de chineses, japoneses, coreanos e outras etnias de olhos amendoados por aqui.
Quando era menor, assistia a programas que diziam os orientais ser todos iguais, impossível diferenciar uma pessoa da outra. Ainda bem que mudei de canal.
Talvez por esses motivos tenha ficado fascinado em investigar aquelas faces em busca de peculiaridades que as distinguissem. Para minha surpresa, foi muito fácil. Mais que isso. Logo comecei a descobrir a harmonia particular daqueles traços.
Essa circunstância me colocou, por outro lado, diante de uma situação nova: qualquer pessoa via de longe que eu era estrangeiro, o que representava ao mesmo tempo uma vantagem e uma desvantagem. Dependendo dos lugares aonde ia, me sentia um pouco evitado, talvez pela timidez de terem que falar comigo em inglês ou outro idioma que dominassem ainda menos ou então era – literalmente – perseguido por pessoas querendo me vender alguma coisa, uma vez que para os chineses (alguém me disse isso) nós ocidentais somos todos “ricos”.
Mas uma coisa posso – e devo – afirmar com certeza: nunca faltaram faces sorridentes e prestativas para mim todos os momentos que precisei, exceto alguns motoristas de táxi que, muito seletivos, às vezes se recusavam a nos levar para o hotel. Ficávamos balançando o cartão com o nome enquanto eles seguiam em frente, sem muitas explicações. Se explicavam também, fazia pouca diferença. Queria só poder ver a minha cara enquanto falavam comigo!
quinta-feira, 1 de julho de 2010
China 1
Onze ou doze horas de viagem até Paris, um rápido desembarque, mais onze ou doze até Shanghai – grafia americana, mais fiel à pronúncia. O avião tinha um recurso interessante: a tela permitia acompanhar, em animação, o percurso do avião e sua localização. Percorremos boa parte do tabuleiro do War: Aral, Dudinka e Mongólia.
Outro recurso era uma imagem de câmera, não de animação, que mostrava o terreno abaixo do avião. A maior parte do percurso mostrava nuvens, montanhas e campos. Foi para lá que corri quando a animação mostrou que sobrevoávamos a cidade. Um misto de ansiedade, afinal, já eram mais de vinte horas de voo e a vontade de antecipar a experiência. Eu era o astronauta e a China o planeta desconhecido. Sabe lá como é a China? A China!
Não tenho como ter certeza, mas acho que existe uma China dentro do imaginário de cada um de nós e desde o dia que soube que iríamos a Shanghai, tratei de alimentar a minha China com o máximo de expectativa possível, exagerando as cores. Descendo do avião, a primeira coisa que fiz foi ligar para casa: sabe que horas são aqui? É de manhã! Boa noite para vocês!
Logo, uma van nos levou até o hotel. Fui todo o trajeto com o nariz colado no vidro do veículo. Só mexia os olhos, totalmente envolvido no processo de autodeslumbramento. Cada carro, cada pedra, cada rosto, tudo me fascinava.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Era para ser futebol.
Ok, é só futebol. Ou era para ser. Mas as últimas discussões exacerbadas na
mídia evidenciaram atitudes que nem o mais fanático torcedor – daqueles
que acompanham o futebol entre os quatro anos que separam as finais das
copas – poderia antever.
Cenas de rua em Buenos Aires, depois da vitória contra a… deixa eu ver,
sim, Grécia: “somos los mejores del mundo” gritava, espumando, um
torcedor. No futebol, provavelmente não seja mentira. Pelo menos, é uma
boa possibilidade. De resto, poucos como eu lamentam que não seja bem
assim. Assusta um pouco imaginar, e aí é só imaginação mesmo, já que só
tenho como dado as cenas que vi na tv, que os argentinos estejam colocando
sobre o futebol alguma responsabilidade maior que a conquista do título da
copa do mundo DE FUTEBOL.
Por aqui uma polêmica imprevista. Encontramos, finalmente, a culpada pelos
nossos insucessos, já que nossos sucessos têm inúmeros pais e mães: a
imprensa.
Salvaguardando excessos de parte à parte… melhor, salvaguardando
porcaria nenhuma. Certas atitudes, sem as barreiras, frequentemente dizem
mais do que nos é permitido saber, ainda mais no mundo do futebol, cujos
meandros obscuros e negociatas passam à margem da apreciação dos
incautos tocedores que aiinda se entregam à paixão por seus clubes, nem
desconfiando que essa paixão para muitos dirigentes se traduza,
exclusivamente, em lucro e persegui-lo a qualquer preço.
O que mais me chamou a atenção no episódio Dunga X Globo (nem sei se foi
a Globo mesmo, pode ter sido coisa pessoal, e pode ter acontecido com
outras emissoras sem a mesma capacidade de repercussão) foram os
desenrolares. Mensagens de AMIGOS de outros estados – via twitter, será
que els acham que ninguém vê? Talvez ninguém DEVESSE – desancando
uma entidade generalizante que atende pelo nome de “gaúchos”, a quem
qualificam de prepotentes, reacionários e por aí vai. De outro lado,
conterrâneos convocando a mesma entidade para, armados com seus
controles remotos, derrubar a audiência da Globo no próximo jogo de Brasil –
e só este, os outros jogos fica liberado, sabe como é, qualidade de imagem,
reportagem, locução, texto, etc – e, de quebra, ressucitar o antigo sonho da
república Farroupilha! Believe-me!!
O que é o futebol! Qua capacidade tem o “esporte” de mostrar certas coisas,
acima de tudo que tem gente que é bem mais inteligente calada.
Mas a culpa, é óbvio, nada tem a ver com o futebol. E já que toquei no
assunto culpa, não posso dizer que não fiquei meio que surpreso com ambas
as reações, relutantemente me colocando como integrante da entidade
agrupadora e homogeneizante conhecida como gaúcha, sob a sombra da
situação que se pôs, fico me perguntando: de quem é a culpa?
Alguns ressaltam sobre o orgulho de ser gaúcho.
É legal ter orgulho da própria terra. Mais que legal, é funcional, ensina a
gente a ter um sentimento de compartir valores, preservá-los, limpar a casa,
tirar o lixo, mas o próprio dicionário nos lembra que é uma palavra dúbia, que
encerra significados tanto positivos quanto negativos e me incomoda, de
verdade, quando vejo que esse “orgulho” mal disfarça uma arrogância que,
até então, provocava nada mais que sorrisos condescendentes e alguns
bocejos das “etnias” excluídas. Mas os recentes acontecimentos demonstram
que não é bem assim.
É duro ser brasileiro. Resistir à tentação de folclorizar o nosso atraso.
Imaginar que um dia vai existir um pouco mais de igualdade nessa terra, mas
que droga, é a nossa melhor aposta. Esse estranhamento já cansou. É muito
chato!
O patriotismo exagerado potencializado pela copa e ainda mais pela atitude
da nossa (?) seleção tem, para mim, um cheiro meio estranho, ainda mais
micropatriotismos envolvidos. E não é exclusividade dos brasileiros. Tenho
ouvido e visto manifestações descabidas que nem se preocupam em
disfarçar a xenofobia entranhada. A gente não se emenda.
O melhor – bom – exmplo veio da África do Sul: saíram antes das oitavas
mas a festa rolou do mesmo jeito. Afinal, é só futebol, né? Ou era para ser.
mídia evidenciaram atitudes que nem o mais fanático torcedor – daqueles
que acompanham o futebol entre os quatro anos que separam as finais das
copas – poderia antever.
Cenas de rua em Buenos Aires, depois da vitória contra a… deixa eu ver,
sim, Grécia: “somos los mejores del mundo” gritava, espumando, um
torcedor. No futebol, provavelmente não seja mentira. Pelo menos, é uma
boa possibilidade. De resto, poucos como eu lamentam que não seja bem
assim. Assusta um pouco imaginar, e aí é só imaginação mesmo, já que só
tenho como dado as cenas que vi na tv, que os argentinos estejam colocando
sobre o futebol alguma responsabilidade maior que a conquista do título da
copa do mundo DE FUTEBOL.
Por aqui uma polêmica imprevista. Encontramos, finalmente, a culpada pelos
nossos insucessos, já que nossos sucessos têm inúmeros pais e mães: a
imprensa.
Salvaguardando excessos de parte à parte… melhor, salvaguardando
porcaria nenhuma. Certas atitudes, sem as barreiras, frequentemente dizem
mais do que nos é permitido saber, ainda mais no mundo do futebol, cujos
meandros obscuros e negociatas passam à margem da apreciação dos
incautos tocedores que aiinda se entregam à paixão por seus clubes, nem
desconfiando que essa paixão para muitos dirigentes se traduza,
exclusivamente, em lucro e persegui-lo a qualquer preço.
O que mais me chamou a atenção no episódio Dunga X Globo (nem sei se foi
a Globo mesmo, pode ter sido coisa pessoal, e pode ter acontecido com
outras emissoras sem a mesma capacidade de repercussão) foram os
desenrolares. Mensagens de AMIGOS de outros estados – via twitter, será
que els acham que ninguém vê? Talvez ninguém DEVESSE – desancando
uma entidade generalizante que atende pelo nome de “gaúchos”, a quem
qualificam de prepotentes, reacionários e por aí vai. De outro lado,
conterrâneos convocando a mesma entidade para, armados com seus
controles remotos, derrubar a audiência da Globo no próximo jogo de Brasil –
e só este, os outros jogos fica liberado, sabe como é, qualidade de imagem,
reportagem, locução, texto, etc – e, de quebra, ressucitar o antigo sonho da
república Farroupilha! Believe-me!!
O que é o futebol! Qua capacidade tem o “esporte” de mostrar certas coisas,
acima de tudo que tem gente que é bem mais inteligente calada.
Mas a culpa, é óbvio, nada tem a ver com o futebol. E já que toquei no
assunto culpa, não posso dizer que não fiquei meio que surpreso com ambas
as reações, relutantemente me colocando como integrante da entidade
agrupadora e homogeneizante conhecida como gaúcha, sob a sombra da
situação que se pôs, fico me perguntando: de quem é a culpa?
Alguns ressaltam sobre o orgulho de ser gaúcho.
É legal ter orgulho da própria terra. Mais que legal, é funcional, ensina a
gente a ter um sentimento de compartir valores, preservá-los, limpar a casa,
tirar o lixo, mas o próprio dicionário nos lembra que é uma palavra dúbia, que
encerra significados tanto positivos quanto negativos e me incomoda, de
verdade, quando vejo que esse “orgulho” mal disfarça uma arrogância que,
até então, provocava nada mais que sorrisos condescendentes e alguns
bocejos das “etnias” excluídas. Mas os recentes acontecimentos demonstram
que não é bem assim.
É duro ser brasileiro. Resistir à tentação de folclorizar o nosso atraso.
Imaginar que um dia vai existir um pouco mais de igualdade nessa terra, mas
que droga, é a nossa melhor aposta. Esse estranhamento já cansou. É muito
chato!
O patriotismo exagerado potencializado pela copa e ainda mais pela atitude
da nossa (?) seleção tem, para mim, um cheiro meio estranho, ainda mais
micropatriotismos envolvidos. E não é exclusividade dos brasileiros. Tenho
ouvido e visto manifestações descabidas que nem se preocupam em
disfarçar a xenofobia entranhada. A gente não se emenda.
O melhor – bom – exmplo veio da África do Sul: saíram antes das oitavas
mas a festa rolou do mesmo jeito. Afinal, é só futebol, né? Ou era para ser.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
À antiga
Meu avô, o velho Olivo, era um cara à antiga.
Ele cumprimentava as pessoas.
Não. Nem todos os avôs o são, ou foram.
Agora mesmo sinto o cheiro da caldeira do prédio ao lado. O aquecimento deles é a lenha. À antiga também. Moro no prédio ao lado, mas usufruo o perfume da lenha queimada.
O vô conseguiu uma façanha: morreu na admiração quase unânime. Sei o que se fala sobre unanimidade, mas no caso dele, nada havia de desabonador.
O velho tinha uma característica que demorei a admirar: ele gostava, ou parecia gostar, das outras pessoas. Esse altruísmo se manifestava da forma mais pura e admirável. Através de bons dias e boas tardes. Sinceros, diga-se.
Todo mundo que vive, ou viveu numa cidade pequena sabe que encontrar inúmeros conhecidos cada vez que se sai para a rua é inevitável. Às vezes deve ser um saco, outras não. A sensação de familiaridade pode ser boa e nunca nos abandonar completamente. Acho que o vô conservou isso.
Convivia bastante com ele e posso dizer que nada havia nele de autoritário ou disciplinador. Minha vó cumpria esse papel – que, aliás, é mais feminino do que se supõe.
Meu pai era um bom homem, mas grave e muito preocupado com o papel de provedor da família. Quando finalmente relaxou, já era tarde. O velho Olivo, que nunca aprendeu a guiar, cruzava a cidade a pé, distribuindo seus bons dias e boas tardes. O dito familiar era que se ele passasse duas vezes na mesma rua, fazia amizade até com os cachorros no caminho.
Era magro. Desengonçado, sempre ostentou um bigode que apontava maniaticamente enquanto nos humilhava em qualquer jogo de cartas. E quando a humilhação não acontecia, não hesitava em roubar, mesmo que os adversários fossem crianças de 10 anos de idade. A vó surgia do nada para censurar: é isso que tu ensina pros teus netos?
Me ensinou a jogar bocha, nunca jogou futebol. Coisa de caras bem à antiga. Na praia eram os netos do Olivo e uma turma de sexagenários em torno das bochas e do balim. Vêm daí uma série de expressões que aprendi no italiano incompreensível dos ancestrais e um monte de piadas engraçadas – para rir à moda antiga. Quando uma bocha desviava num dos inúmeros minúsculos objetos que existem em qualquer areia de praia, nós e os vovôs dizíamos: pegou nom osso de grilo!
Prova de qualidade: a criançada estava sempre em volta dele.
Sua profunda sabedoria saída sabe-se lá de onde nunca o permitiu crescer.
Morreu criança. Nunca soube direito a idade dele, nunca quis saber.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Papeizinhos
As grandes, cinematográficas saudades que repousam nos recônditos de nossa memória são inspiradoras, mas as saudades contidas nos pequenos objetos e a sua persistência são perturbadoras.
Talvez por sempre nos pegar desprevenidos: um papel de bala reconstrói um universo inteiro.
Fala-se do poder das imagens e das palavras, mas essas pequenas coisas têm a força de uma máquina do tempo.
Na adolescência, enquanto voltávamos para Porto Alegre depois de um longo período de veraneio no litoral, me surpreendi com um pequeno pedaço de madeira nas mãos. Rastro de algum resto de algo que recolhi antes de sair pela última vez da praia.
A última vez.
Como isso parecia verdadeiro naqueles dias. Só revestia de mais importância o pedaço de madeira.
Havia outros motivos, claro. A adolescência é o período das primeiras paixões e havia, claro, uma pessoa, que, claro também, nunca ficou sabendo de nada.
Segurava o pauzinho e o nó na garganta.
Fiquei obcecado por essas pequenas relíquias e os átomos de significado que elas carregam. Sei que não sou o único – originalidade nunca foi o meu forte – e procuro não coletar restos humanos, como cabelos, unhas e qualquer coisa perecível (argh!).
Cheguei a incorporar saudades alheias: um compacto – daqueles pretos de vinil – do Lennon, que meu irmão havia pego emprestado de alguma garota e era perfumado (na época essas razões me escapavam). Nunca mais ouvi #9 Dream do mesmo jeito. O perfume qualificou a – já ótima – música. A garota, só existiu na minha imaginação, nunca a vi.
Nessas horas penso em moléculas, células, nanocoisas que permanecem naqueles objetos. Mesmo um recibo de cartão contém a memória do momento, uma partícula da poeira daquele ar.
Mas apesar disso, não guardo esses objetos.
Eles me colecionam.
Talvez por sempre nos pegar desprevenidos: um papel de bala reconstrói um universo inteiro.
Fala-se do poder das imagens e das palavras, mas essas pequenas coisas têm a força de uma máquina do tempo.
Na adolescência, enquanto voltávamos para Porto Alegre depois de um longo período de veraneio no litoral, me surpreendi com um pequeno pedaço de madeira nas mãos. Rastro de algum resto de algo que recolhi antes de sair pela última vez da praia.
A última vez.
Como isso parecia verdadeiro naqueles dias. Só revestia de mais importância o pedaço de madeira.
Havia outros motivos, claro. A adolescência é o período das primeiras paixões e havia, claro, uma pessoa, que, claro também, nunca ficou sabendo de nada.
Segurava o pauzinho e o nó na garganta.
Fiquei obcecado por essas pequenas relíquias e os átomos de significado que elas carregam. Sei que não sou o único – originalidade nunca foi o meu forte – e procuro não coletar restos humanos, como cabelos, unhas e qualquer coisa perecível (argh!).
Cheguei a incorporar saudades alheias: um compacto – daqueles pretos de vinil – do Lennon, que meu irmão havia pego emprestado de alguma garota e era perfumado (na época essas razões me escapavam). Nunca mais ouvi #9 Dream do mesmo jeito. O perfume qualificou a – já ótima – música. A garota, só existiu na minha imaginação, nunca a vi.
Nessas horas penso em moléculas, células, nanocoisas que permanecem naqueles objetos. Mesmo um recibo de cartão contém a memória do momento, uma partícula da poeira daquele ar.
Mas apesar disso, não guardo esses objetos.
Eles me colecionam.
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