sábado, 15 de janeiro de 2011

Aprender a escrever é aprender a ver (eu acho).

Prá quem se interessa: compor uma música é, como quase tudo mais na
vida, fazer algumas escolhas.

Recebemos, eventualmente, poemas e letras de outras pessoas com a
ordem explícita: usem! Façam uma música com isso! (Já aproveito e aviso:
não é o nosso sistema. Preferimos dar voz às nossas histórias. É um
exercício que nos motiva de verdade). Quanto à qualidade do material
enviado, varia. Têm coisas boas e coisas ruins. As boas nos parecem boas
por várias razões, mas têm uma qualidade recorrente: elas nos surpreendem.
Já as ruins, por eliminação, têm por defeito dizer as mesmas coisas que todo
mundo já disse da mesma forma. O escritor pensa, orgulhoso: isso tem cara
de letra de música. E não está errado. Têm milhares parecidas. Ele já viu
aquilo que escreveu em várias canções, dito exatamente da mesma forma. O
qua não quer dizer que “não funcione”. Qual é o problema, então?

Essa é uma questão pedregosa, mas acho que me faço entender melhor
assim: se você tem alguma ambição, talvez deva buscar um pouco de
originalidade para alcançar seus objetivos. Dá para imaginar que tem
bastante gente tentando do jeito mais convencional, não? A disputa por
aquele caminho é grande. Agora, ser “original” é tudo, menos simples.
Escrever de uma forma original é, antes de tudo, aprender a enxergar o
mundo de uma forma diferente. Dito assim soa como auto-ajuda, e é isso
mesmo. Ajuda um bocado em todos os sentidos criar uma forma mais ou
menos particular ou, no mínimo, menos “pronta” de pensar sobre tudo. É
difícil, mas é o caminho, senão a sua originalidade vai soar gratuita. Envolve,
sim, dar uma polida na cultura geral. Mas repito: vale a pena. Sei que já falei
isso há uns bons posts atrás. Azar. Sou repetitivo mesmo e não tenho
nenhum problema com isso.

Quase todas as letras que recebemos falam sobre relacionamentos
amorosos. Natural, as relações amorosas são momentos que nos colocam
próximos à música. A sensibilidade fica afiada. As músicas parecem ganhar
sentido nessas horas. A maior parte também fala de relacionamentos mal
sucedidos ou problemáticos. Natural também. É quando passamos por eles
que nos socorremos da música. Além disso, quase todos passamos por
essas situações, o que facilita buscar a empatia do ouvinte. Mas
independentemente de você estar ou não passando pela situação que relata (acho
que é mais difícil fazer uma boa letra quando estamos imersos, embora
achemos mais fácil, do mesmo jeito que um bêbado acha que dirige melhor
sob o efeito do álcool enquanto ziguezagueia pela pista), existem formas e
formas de contar uma história.

Fico pensando: tanta gente gosta de animais de estimação, mas quase
ninguém escreve uma história sobre sua relação de amor – porque não? –
com seus bichos.

Era um dia bem normal
Levei Rex para passear…


Tudo bem, não foi original. Rex, então, nem se fala. Mas o tema é novo. Dá
para ser “romântico”

Gosto do jeito que Rex me olha
Enquanto faz o seu xixi…


Explorar a identidade

Rex é um pouco estranho
Assim como eu
Gostamos das mesmas coisas
Mas eu prefiro fazer xixi em casa.


Brincadeiras à parte, tem uma bem conhecida que sempre me vem à cabeça:

Meu coração
Não sei porque
Bate feliz
quando te vê


Singela. Diz tudo que tem para dizer. Não é nada banal e FOI ESCRITA HÁ
QUASE 100 ANOS ATRÁS por Pixinguinha e João de Barro.
Mas uma dica inesquecível me foi dada por um dos meus mestres: você
precisa ter um MOTIVO. Uma razão para escrever. Nem que seja pelo non
sense. Sem isso, fica tudo vazio e sem sentido. Talvez por isso eu seja um
pouco repetitivo. Nossos motivos não são tantos assim, na maioria dos casos
e talvez viver seja, no fundo, ampliar as razões para escrever. Viver histórias
que valham a pena ser contadas, por mais singelas que pareçam. A ideia é
que desenvolvamos uma forma apurada de VER aquilo que muitos banalizam
com frases feitas e fugir de soluções prontas ou, ainda, brincar com elas mas
SEMPRE, sempre falar exatamente o que estamos sentindo. Isso é difícil, eu
sei, mas sempre original.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Complicando

Todo mundo gosta das coisas simples. Ou queria tornar as coisas mais
simples.

Nasce e renasce no nosso imaginário a noção de que simplificar as coisas é,
sempre, uma melhora. Também virou meio consensual que aprender a
enxergar a beleza na simplicidade, bem como comprazer-se com as coisas
simples torna a vida mais fácil. Será?

Já tenho um problema natural com as coisas muito consensuais. Um dos
meus melhores professores um dia me disse que é no mínimo preguiçoso,
quando não desnecessário, dizer o mesmo que todo mundo diz. Concordo. O
senso comum me dá arrepios. Logo, discordo das simplificações por isso.
Mas há outras razões.

No olhar de um artista dos bons, uma paisagem de céu, campo e umas
colinas distantes vira um turbilhão de complexidades. Ele parece desmontar a
suposta harmonia da cena e a recria através de um filtro interior quase nunca
muito harmônico e equilibrado, quando ele é dos bons, repito.

Um amigo queria que nosso novo disco soasse mais... simples. Entendo o
que ele quer dizer. Mas simples, na criação artística, é uma ideia muito
enganosa. A simplicidade que nos seduz nos trabalhos alheios é sempre
fruto de um estupidamente complexo processo de amadurecimento do
próprio artista. Aquilo que vemos é só o reflexo desse processo. A ponta do
iceberg. Difícil e inútil tentar imitar.

Viver, falar, tocar, escrever, transar, abraçar, relaxar, pintar, cantar, beijar, criar filhos, amar
e caminhar de mãos dadas são coisas bem complicadas. Não existem
manuais ou regras que possam garantir que, ao segui-las, seremos bons em
fazer essas coisas. Simplificar? Acho que não.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Caminhada

"Quando eu venho com a mãe a gente anda mais rápido".

Eu acompanho o Antonio, meu filho, ao inglês. Sempre o obrigo a caminhadas quando o tempo e o clima ajudam. Ele vai e volta reclamando o conforto do carro. Reclama também do meu ritmo de caminhar.

"Olha, filho, meu ritmo é este. Me recuso a ficar andando rapidinho".

"Porque? Desse jeito a gente demora muito".

"Não gosto de caminhar 'rapidinho'. Me sinto ridículo. Ou caminho ou corro, meio termo não é comigo. Além do mais, não consigo imaginar o... James Bond, por exemplo, andando 'rapidinho'".

"???"

"Imagina só o Clint Eastwood todo 'apressadinho' pela rua? Não dá! Meu caminhar é calculado. Tem o ritmo do cara que parece carregar o mundo nas costas. Ele vislumbra o entardecer, cerra os olhos e descortina a paisagem. O dourado do sol empresta dignidade às rugas, testemunhas indeléveis de experiências boas e más a que a vida o submeteu..."

"Sei... mas com a mãe é bem mais rápido".

Cascudo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Longevidades

Em outubro, dia 5, o Nenhum completou 24 anos e nossos shows recentes pelo país parecem nos mostrar que ainda tem muito caminho pela frente.

Cada vez que confrontadas com esse número vistoso, as pessoas nos perguntam: como vocês conseguem?

Acho que nos habituamos, por algum motivo, com a efemeridade das relações frequente no meio artístico. Justificável. É um pessoal com um ego superdimensionado e que acaba desenvolvendo pouca fé na persistência. Não todos, claro.

No nosso caso, fora as explicações de praxe, como a amizade, o respeito mútuo, do fato do Nenhum ainda responder às nossas ambições artísticas e de que é muito legal fazer parte dessa história – que é, a rigor, fazer parte da história da arte produzida em nosso estado e país – essa longevidade tem ainda muitas outras razões, e aí entra o meu caso pessoal.

Um dos imperativos de nosso trabalho são as viagens, que nos impõem frequentes ausências de nossas casas, que há bastante tempo são lares, muito além de um simples espaço físico, mas o lugar em que coabitamos com aqueles que amamos. 

O que acontece nesse "lugar" é também muito responsável por nossa persistência, equilíbrio e dedicação.

Nesse mês, uma das grandes responsáveis por minha força nessa caminhada é que vai estar de aniversário, a Yula. Minha garota, meu amor e apoio.

As boas – e longas – histórias se escrevem, acima de tudo, com amor e reconhecimento. Sem isso, esses 24 anos nunca teriam acontecido.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A solidão do Coronel Nascimento

O coronel Nascimento parece carregar o peso daqueles que escolhem – ou não saberiam ter outra escolha – viver segundo suas convicções.

Todas as noites quando chega no seu – modesto – apartamento, abre a geladeira e enche um copo de água gelada. Sob o luto da morte do amigo, sequer acende a luz. É emblemática a sua solidão. Embora respeitado pelos que o conhecem só pelas manchetes de jornal, provoca sentimentos controversos – mesmo medo – naqueles que o conhecem mais profundamente.

O que mais me incomoda em ambos os "Tropas de Elite" é justamente isso: é uma ficção, mas também é um documentário e, para além da constatação de que muito poucas expectativas podemos alimentar a respeito de boa parte de nossa classe política – embora, repito o que já disse aqui, são a nossa melhor saída – é pertinente constatar que pessoas que vivam sob o norte de suas convicções frequentemente intimidam – e a zombaria alheia é um possível reflexo disto – e parecem encaminhar-se para um crescente isolamento, como animais em vias de extinção, mas que têm a petulância de nos incomodar a todos, pois evidenciam nossas fraquezas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Aprendendo

    Uma das coisas legais que atribuo à maturidade é, paradoxalmente, renegá-la.
   
    Tenho dois filhos pequenos que às vezes me olham com aquela expressão que parece dizer: o que eu faço agora? Bom, toda a vez que, pretensioso, uso o peso da minha experiência para a resposta, invariavelmente erro. Estou ficando burro...

    Parece inescapável: quanto mais acumulamos vivência e conhecimento, mais se amplia a nossa sensação de ignorância.

    Mas a maturidade traz coisas boas, quando encarada com sabedoria, o que pode ser traduzido por uma boa dose de humildade e reconhecimento de suas limitações. 

    Sei que quando me meto a fazer alguma coisa na qual já alcancei, supostamente, a "maturidade"– como gravar um disco, por exemplo – , sou forçado a reconhecer que minhas intervenções mais calcadas na intuição quase sempre produzem os melhores resultados. Vivo, assim, me colocando na condição de um iniciante, preservando a estranheza diante de problemas que, se facilitar, conheço vinte formas diferentes de resolver, mas, confesso, já cansei da maioria. Prefiro descobrir novas soluções, mesmo que me exponha ao erro.

    Com os filhos, algo parecido: me disciplino para perseguir respostas JUNTO com eles, e não apresentar atalhos ou os meus caminhos. Assim dou um jeito de aprender mais.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Escolhas Políticas

    Acredito que a política é, sobretudo, aprender a olhar para o lado e tentar enxergar, dentro dos limites do possível, o outro. Por outro lado, é também um exercício do olhar interno e das descobertas e esclarecimentos que esse exercício traz.

    Nessa eleição, profundamente polarizada, me dediquei a passar boa parte do tempo tentando descobrir o que, sinceramente, pensam aqueles que pensam diferente de mim. Isso não faz de mim uma pessoa melhor ou pior que ninguém, mas, óbvio, uma exceção.

    O que me faz intuir que estou no caminho certo foi a oportunidade de aprofundar o conhecimento sobre aquilo que acredito e desacredito. Eu, é claro, não sou perfeito, mas não sou burro. E procuro não ceder ao auto-engano mais do que o absolutamente necessário.  

   A polarização dessa campanha tem, claro, seus culpados, mas não pretendo entrar nessa questão. O que acontece é que quase não se consegue conversar sobre política sem entrar numa discussão fundamental com qualquer um que tenha escolhido o outro lado.

   As paixões estão no ar e as escolhas políticas costumam ter horror à dúvida. Mas somos instados a escolher e isso envolve tomar partido, e é nessa questão que pretendo tocar.

  Acho que o momento exige racionalidade, o que envolve, para mim, votar em alguém que não necessariamente pense como eu em relação a todas as questões, ou que seja candidato a santo – não é para isso a eleição, né? – e que nunca tenha cometido seus erros. Mas é muito importante que compartilhe comigo certos valores.

  Ser racional significa contrapor-se ao voto puramente ideológico, normalmente refratário à racionalidade. Partidos políticos e politicos, em suma, não são para ser amados ou suscitar paixões, a meu ver. Já certos valores, como a democracia, a economia de mercado, a liberdade de expressão (inclusive a religiosa) o respeito às leis e um Estado verdadeiramente voltado para seus atributos básicos, que consistem em proporcionar aos seus financiadores (os cidadãos, que pagam seus impostos) educação e saúde de qualidade, bem como segurança, além da vontade (corroborada por ações) de corrigir suas imperfeições, são valores inegociáveis para mim. E sob esse ponto de vista, a meu ver, as candidaturas não são assemelhadas.

  Não custa lembrar que o resultado de uma escolha ruim representará, no mínimo, quatro anos de arrependimento.

  Posso não escolher o candidato que será o vitorioso. Isso me chateia, por um lado, já que confio no meu julgamento e no que ele se baseia, mas qualquer que seja o resultado da eleição, sei que essa escolha foi motivada por sinceros "olhar para o lado" e "olhar interno". O que garante que valeu a pena.